Quando eu fecho os olhos, não é o escuro que eu vejo

Às vezes eu queria ter a habilidade de enxergar as coisas pelo lado de fora. Mudar de ângulo, de perspectiva.

Ver tudo com a mente um pouco mais silenciosa, com o coração num compasso regular.

Como deve ser sentir tudo com um nível a menos de intensidade? Ou talvez dois.

A minha versão de fora repetiria uma situação de novo e de novo na cabeça? Refaria os seus passos? Recriaria as suas falas?

O que seria feito com os roteiros inventados? Com todo o enredo e suas possibilidades… Pra onde iriam as ideias que morrem pelo caminho?

Os meus amores iriam embora realmente partindo. Levando com eles o projetor que insiste em iluminar as paredes com memórias. Eu os deixaria ir.

Os erros seriam escola, não falhas. Não haveria tempo para arrependimentos ou espaço para os gatilhos.

O desejo fluiria sem culpa. Nenhum arfar seria abafado. Toda entrega seria completa.

Como seria ter todo o controle nas suas mãos? Ou não ter um medo sequer de não ter controle algum…

As decisões não trariam tanto frio na barriga, as dúvidas não apertariam o peito. Nada de pensamentos a mil por hora ou uma insônia que luta contra um corpo cansado e uma mente inquieta.

Mas a intensidade é tudo o que tenho. Não sei estar aqui dentro sem transbordar. Não sei ler e não pensar, ouvir e não sentir, ver e não lembrar.

Quando eu fecho os olhos, não é o escuro que eu vejo. Tudo brilha.

– Fernanda Rocha

Pensamentos próprios

Ontem estive pensando, e muito, sobre como reproduzimos o que nossos familiares nos ensinaram. Ou seja, o que de certo achamos que combina com a nossa personalidade e o que apenas repetimos porque a convivência proporcionou assim.

Venho de um lar com pais de uma geração mais antiga, que aprendeu que realização está associada a uma rígida base familiar e bens materiais construídos com as próprias mãos. E penso que justamente por tamanha rigidez, a dificuldade de se adaptar aos novos tempos e pensar na hipótese de mudança os façam temer tanto. A ponto se sentirem cercados e deprimidos. Não são raras as vezes em que escuto seus pensamentos falados, em tons de tristeza. Na verdade, cresci observando-os assim. Como se não se encaixassem nos lugares, apenas por medo de mudança.

E parte do que eles nos passaram, está inteiramente ligado a essa forma de enxergar as coisas. Isto é, antes de começar a pensar por mim, me vi por muito tempo apenas reproduzindo as formas deles de interpretarem a vida. Em resistir a transformação, por exemplo.

“E permitimos viver com esse incomodo, que ‘tecnicamente’ não nos pertence, por boa parte da vida. Como uma vida latente.”

Mas não é como se eles fizessem por mal. Acredito que eles também aprenderam a ser assim com alguém. E assim sucessivamente. O ponto é, como nos deixamos levar por tanto tempo com uma série de pensamentos baseados em experiências (ou até mesmo especulação) de outras pessoas? E permitimos viver com esse incomodo, que “tecnicamente” não nos pertence, por boa parte da vida. Como uma vida latente.

Acredito que nenhuma outra razão nos condiciona a vida senão o autoconhecimento. Porque para mim, foi somente me questionando e questionando essas atitudes ao meu redor, é que fui capaz de entender que o que me machucava internamente era um hábito que eu não concordava de fato e nem eu mesma precisava ter. Apenas estava reproduzindo.

Ainda é difícil para mim enxergar os meus pais, logo as minhas raízes, como um espelho nesse aspecto. Mas também reconheço o alívio de poder agora separar o joio do trigo. Isto é, o que é meu e o que não. Isso me alimenta uma esperança cada vez maior de poder fazer diferente.

Sobre escrever e formar opinião sobre si

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Quando mais nova eu me identifiquei de uma forma muito acolhedora com a escrita. Enxerguei-a como uma maneira para expressar meus sentimentos mais profundos. Durante a minha adolescência posso dizer que passei boa parte dela escrevendo histórias só para as minhas amigas de colégio opinarem mais tarde. E cheguei até a publicar um livro nessa brincadeira!

Nesse hobby percebi um desejo muito intrínseco, o de criar histórias e personagens com pensamentos muito próprios. Mas entre uma coisa e outra, fui me desprendendo do hábito e me afastando aos poucos. Confesso que até mesmo o projeto deste blog é uma tentativa de voltar a fertilidade desta prática e também uma forma de registrar as minhas ideias.

Escrever para mim, sobretudo, é um jeito muito eficaz de colocar as ideias no lugar e dar concretude as opiniões que pairam em minha mente. E atualmente, como vivemos cercados de inúmeras opiniões conflitantes nas redes sociais, vejo como uma necessidade de cada vez mais construir pensamentos próprios e se atentar sobre o que é realmente nosso ou o que são ideias externas.

Também me soma pensar em uma construção poética sobre si mesma, já que nossos pensamentos são bombardeados o tempo todo sobre inúmeros questionamentos. Portanto, considero relevante estruturar nossas formas de pensar por meio de algum mecanismo de expressão. Para que assim se possa facilitar a visualização mais apurada de nossos devaneios.

Nesse sentido, a escrita se alicerça a esse aspecto visceral para mim. É uma forma que encontrei para dissolver e reformular pensamentos, a fim de me elaborar mais honestamente. Uma parte muito sábia dentro de mim me apontou este caminho por diversas vezes como um meio de crescimento pessoal. E cá estou, novamente, tentando decifrar as minhas partes.

Escrever é um dos meus mecanismos favoritos. E o seu, qual é?

Sobre voz interior

O que eu realmente gostaria de estar expressando? O que são de fato os meus pensamentos e o que são ideias de outras pessoas plantadas em mim? O que eu reconheço em mim que me orgulho?

Já estou com 26 anos e reconheço a falta que me faz de olhar mais vezes para dentro e ficar feliz pela pessoa que me tornei. Tenho esta sensação porque talvez não saiba ao certo quem sou. E sinto que em todos esses anos, eu somatizei em mim um compilado de ideias de outros (boas e ruins) das quais eu não sabia digerir o que iria ficar e o que iria embora. Devido a isso, sempre pensei que o simples fato de acumular essas ideias, já dizia o suficiente sobre a minha personalidade, ou seja, que eu era exatamente como elas!

Acreditei profundamente nisso, apesar de nunca me dar por satisfeita por completo. Havia uma voz em meu interior que se arriscava a projetar maior, e embora fosse instaneamente ofuscada em meio a tantos pensamentos, sempre sentia que ela torcia com afinco por mim. Mais tarde, assimilei melhor alguns termos que a justificavam, como: “intuição” “eu superior” “voz do silêncio” “tomada de consciência” e “mulher selvagem”.

Para tanto, venho compreendendo nas ultimas semanas que possuímos muitas vozes dentro de nós. E aprendi que é necessário treinar os nossos ouvidos para escutar aquela que prevalece, porque é ela quem impera diante de todas. Essa voz é a mais sábia. Ela conhece cada uma das faces que carregamos, e sabe nos dizer quais nos serão úteis e quais devem se depurar. É uma inteligência natural, extremamente justa, que quer o nosso bem acima de tudo. E quando a escutamos, sabemos o que devemos ressignificar em nossas vidas. Dar valor ao que precisa ser dado e permitir partir o que não lhe contribui.

Desta forma, acredito que quando nos voltamos para dentro e sentimos orgulho de quem somos, é porque nos escutamos mais vezes e por isso fazemos escolhas mais verdadeiras com nós mesmos. E nada para mim é mais poderoso do que saber se escutar em meio a tantos outros indivíduos se comunicando simultaneamente. Hoje, sinto uma enorme vontade de me ressignificar e me reconectar a esta voz. Acolher as minhas palavras, o meu corpo, os meus sentimentos, os bons pensamentos que projeto, e retribuir ao meio toda essa soma significativa e autentica de quem me tornei.

É quando nos vemos intimamente mais solitários

Apenas você e a sua própria companhia. Isso pode ser algo que te assuste… Estar sozinho frequentemente é relacionado à solidão. E solidão é triste, certo? Bom, eu penso que não. Com certeza pode ser melancólico, claro, mas isso depende mais dos rumos da sua própria mente do que do fato de se estar sozinho ou não. Pois, às vezes, quando estamos cercados de pessoas é quando nos vemos intimamente mais solitários.

Eu mesma já me senti bastante solitária com alguém bem ali do meu lado. Eu percebia que eu não era vista de fato, como se os meus medos e pensamentos mais profundos não fizessem a menor diferença. Eles sequer eram relevantes para se tornarem pauta. Afinal, não era para o meu eu de verdade que as luzes do palco eram direcionadas, e sim para o que eu representava, para o alívio que eu podia trazer, a paz que eu podia gerar.

Mas eu já não cabia mais no pequeno espaço reservado para mim. Eu precisei então interromper um fluxo que me machucava aos poucos há bastante tempo. Eu tive que escolher a mim mesma. E essa foi a melhor decisão que já tomei.

Eu coloquei um pé fora da sombra de um outro alguém e gostei do calor da luz sobre o meu corpo. E a cada novo passo eu era apresentada a um novo questionamento e um consequente aprendizado. Eu enfim enxerguei o meu reflexo, encontrei a minha voz, desafiei a minha força.

Esse processo doeu, mas não da forma que eu esperava. Meus dias não foram regados de raiva ou outros sentimentos que rapidamente se esvaem. Não foi como o arrancar de um curativo, foi preciso compreender as minhas feridas uma a uma. Um longo descobrimento de todos os efeitos dos traumas que ainda faziam questão de brilhar ao decorrer do caminho, quase como sinais de alerta de que um dia uma entrega não-saudável aconteceu ali.

No fim das contas, a “solidão” foi quem me trouxe clareza e finalmente paz. Eu deixei de estar só, pois eu me tornei minha e inteiramente minha. Hoje eu me sinto parte de um todo, pequena na grandeza vasta desse universo de possibilidades. Mais pertencente a um mundo que gira a todo instante, sempre nos mostrando algo maravilhoso com o gostinho do desconhecido.

Mais que nunca, hoje eu me sinto livre.

Portas da alma

Essa noite tive um sonho diferente. Sonhei que estava visitando um casal de amigos e eles me mostravam sua casa. O ano devia ser por volta de 1920, pelas vestes de todos e a casa em estilo neocolonial. Passamos por um quarto, que tinha uma janela voltada para a rua de pedra, com edifícios bem a frente, de uma arquitetura europeia (eu não saberia descrever qual o estilo especificamente). O fato é que eu não estava no Brasil. Então, ao sairmos do quarto passamos por uma porta de madeira enorme, pela qual não fechava. A porta estava estragada, e mal encaixava em seu batente. E aquilo me angustiou e tentei consertá-la ali mesmo. Fiz tudo o que podia e não conseguia deixar a porta tão bem arrumada quanto o resto da casa. Enquanto isso o casal me encarava, o homem especificamente desaprovava. Como se eu não tivesse que tentar consertar o que devia ser deixado ali. E então acordei.

Bom, sempre que sonho com algo peculiar procuro averiguar o significado. E lá fui eu, às 8h da manhã buscar no Google o significado de sonhar com porta quebrada. Eu não sou de confiar em exatamente todas as informações da internet, mas devo confessar que o que encontrei me fez refletir sobre a minha vida inteira, a ponto de vir aqui me expressar.

Sonhar com porta quebrada segundo o site tal tal tal, tem a ver com a falta de confiança que depositamos em nós mesmos e no curso da vida. Tem a ver também com não esquecer assuntos do passado, agarrando-se a velhos pensamentos ou hábitos que não nos contribuem. Por fim, significa que devemos tentar mais por nós mesmos, a mudar nossas perspectivas e enfim deixar o Universo concretizar seus planos de abundância para nós.

Por que isso me fez pensar sobre toda a minha vida?

Bem, estamos em 2020 e ultimamente tenho tentado (ou não tentado tanto assim) me reconectar comigo mesma. Porque venho carregando essa sensação de estar fora de mim há tanto tempo que não sei mais contar. Evidente que os eventos desse ano nos deixaram com tamanha perplexidade, e ainda estamos vivendo com frequente negatividade ao nosso redor. No entanto, acredito que é como se estivéssemos vivendo um clímax, isto é, um resultado intensificado de outros fatores que acumulados nos fizeram chegar até aqui.

Desde que me entendo por gente acordamos vendo ou escutando coisas depreciativas, que nos fazem acreditar que o mundo se trata apenas disso. Eu, por exemplo, percebo que levo uma vida com um acreditar muito mais focado em bloqueios do que em expansão. Tenho tido, inclusive, recorrentemente a sensação de que estou “treinada” para pensar ser menos do que deveria ser, como se eu estivesse o tempo todo magoada e com raiva, me reprimindo para não crescer (Não é estranho? Já que estou apenas com 25 anos e tenho muito o que construir!). Afinal, porque me prender tanto a questões que não me agregam, quando há formas mais saudáveis de refletir sobre o que está acontecendo? Por que enfatizar detalhes negativos se há uma vastidão de possibilidades progressistas?

Logo após eu verificar o significado de meu sonho da porta, abri a janela do Instagram e quase que em seguida abriu-se uma fresta da janela do Youtube, não demorou para que várias outras janelinhas de notificações também pedissem para serem escancaradas. E um vendaval de informações adentrou o meu quarto de uma só vez. Com o cabelo desgrenhado encarei toda a quantidade encorpada de notícias e percebi naquele momento que nada daquilo direcionaria o meu olhar para uma vista mais bonita. Pensando bem, agora concordo que tentar consertar a porta quebrada não vai mesmo me levar para outro lugar. Escolher permanecer cercada da cultura do culto ao negativo só alimenta ainda mais o nosso desaprovar de nós mesmas (mesmos). Creio que já vivi tempo demais dentro desse espectro opaco. E agora procuro me reencontrar em algum cômodo dentro daquela grande casa, da qual eu não me preocupe com velhos objetos estragados, mas sim com a beleza dos ricos detalhes de uma exuberante mansão dos anos 20.

#12 Hoje são todos já parte de mim

Eu sempre fiz questão de poucos, essa é a verdade. Apesar de amar conhecer gente nova, eu sou daquelas pessoas que cultivam poucas amizades pelo caminho. Nunca fui popular e sequer penso que um dia serei. Eu sempre mantive perto de mim apenas aqueles amigos que sei que posso contar verdadeiramente. E eu me sinto muito bem assim.

Porém, como as relações sociais com pessoas desconhecidas são um dos objetivos/obstáculos de uma viagem de intercâmbio, eu sempre ficava muito ansiosa ao imaginar como eu lidaria com essa etapa da minha vida. Sempre criando cenas e cenários, eu via as minhas expectativas me levando às mais diversas situações.

“Como eu faria amigos estando completamente sozinha em um país do outro lado do planeta? E se eu não me conectar de verdade com ninguém? E se as pessoas não gostarem de mim? E se eu não conseguir me encaixar no estilo de vida, no país, nos rolês?”

Deu pra perceber que eu sou ansiosa? Pois é…

Porém, era um medinho bom. Eu sabia que daria certo, mesmo sem saber como aconteceria. Primeiro, porque eu estava totalmente aberta para viver aquela fase de verdade. Segundo, porque se tudo desse errado, eu sempre poderia curtir a minha própria companhia. Às vezes é preciso se lembrar disso.

Mas então o Universo me surpreendeu mais uma vez. Nessa viagem eu fiz amizades lindas, conexões que até hoje eu nem sei como explicar. O meu amor cruzou sotaques, fronteiras, culturas, idiomas. Eu me vi cercada por (novos!) amigos de verdade que fizeram do meu período na Austrália a melhor experiência da minha vida!

Já sabemos que tudo em um intercâmbio é mais intenso, e o tempo é algo que parece surtir efeito de modo diferente também. Nós aprendemos na pele que tempo não é o que define intimidade, confiança e conexão. A força das trocas humanas depende muito mais das situações vividas e do quanto nos abrimos e nos entregamos às nossas relações.

E eu passei por diversas fases nesse trajeto. Tive por um momento o meu pequeno squad particular, das amigas que viajaram, riram, dançaram e beberam com a mesma intensidade em que trocaram as dores, os planos e as frustações. Vivi também um outro momento em que eu tive amigos exclusivamente homens – meus verdadeiros irmãos -, quando eu pude aprender bastante, desconstruir vários pré-conceitos e rir de muitos absurdos.

Percorrendo o meu caminho, eu me enxerguei vivendo situações que nunca fui capaz de criar naqueles meus cenários imaginários de antes. A realidade foi muito melhor. Infinitamente melhor.

Hoje eu levo todos comigo na memória e principalmente no coração. Nós enfrentamos nossas dificuldades juntos, celebramos, sofremos, enchemos a cara. Compartilhamos nossas dores e sorrisos, curtimos a vida e tornamos os nossos dias mais leves e especiais.

São inúmeros registros e recordações, que sempre vão me levar de volta à nostalgia daquelas curvas da vida que me dão um frio na barriga delicioso. Essas pessoas que cruzaram o meu caminho agora são parte da minha história. Hoje são todos já parte de mim e pra sempre serei grata por tamanha participação na escrita desse capítulo.

#11 A linha tênue que separa a entrega máxima do inconcebível

Muito eu aprendi viajando sozinha pra Austrália. A minha lente para o mundo se ampliou e mudou bastante, ao mesmo tempo em que eu passei a ligar cada vez menos para a visão dos outros sobre mim. Mas nada supera o que eu aprendi sobre mim mesma e as barreiras que quebrei – internas e externas.

Afinal, você conhece as suas margens? Você sabe distinguir a linha tênue que separa a entrega máxima do inconcebível? Você já precisou ir até lá?

Por sempre refletir e me questionar bastante, a vida toda eu pensei que me conhecesse. Nunca o tanto que deveria, claro, mas o suficiente pra me guiar. Porém, o que até pouco tempo atrás eu não compreendia é que nós reagimos às situações em que nos colocamos e vivemos de fato. É apenas assim que sabemos como lidaríamos mesmo com algo. E nessas horas, a teoria pouco tem valor.

Portanto, sim, eu me conhecia, mas eu nunca tinha experimentado diversas situações que vivi de 2018 pra cá. Eu construí todas elas. Muitas em conjunto. Outras sozinha. Tantas na vida real, e algumas apenas na minha mente tão barulhenta.

Eu conheci muitas versões de mim. E compreendi versões antigas também. As perdoei. Construí novas Fernandas pra desconstruir logo em seguida. Deixei meu coração solto. Depois o guardei a sete chaves novamente, só pra mais tarde o escancarar mais uma vez. Fiz o que tive vontade, quando tive vontade. Me envolvi, me apeguei. Mudei de ideia. Fiz tudo de novo.

Me descobri. Encontrei em mim a minha melhor companhia. Senti o poder todinho nas minhas mãos. Vi novos tetos e horizontes. Provoquei. Brinquei, entrei no jogo, mudei os rumos. Perdi, ganhei. Marquei e fui marcada.

Conheci pessoas que viraram boas histórias. Que me ensinaram a ouvir o amor em idiomas distintos. Que ajudaram a me desvendar. Que toparam as minhas aventuras, entraram de cabeça nos meus devaneios. Tentaram me acompanhar. Sendo breves ou permanentes. Todos me fazendo me sentir presente. Corajosa. Viva.

Alguns amores duraram o tempo de um batimento se acalmar e eu perceber que não era amor de fato. Outros aconteceram em uma realidade paralela, onde o relógio corria diferente. Uns pareceram sair de um livro de romance, outros de uma série de comédia.

Alguns amores se quebraram com a rapidez de uma palavra que fere. Algumas atitudes decepcionaram, outras escolhas foram bem questionadas. Alguns ainda despertam um riso frouxo. Outros permanecem no fundo da mente, seguros. Uns sempre vão ter o seu lugar. Outros eu nem sei como foram parar ali.

Todos conexão, verdade, coragem. Importantes. Todos a caminho da melhor versão.

Todos parte dela.

#10 Eu não confiaria o meu olhar de mundo na mão de mais ninguém

Querer morrer na segunda-feira, se arrastar até a sexta e viver aos finais de semana. Essa é a fórmula de sobrevivência que nos foi ensinada desde que o mundo é mundo. Um costume tão enraizado na nossa rotina que já se encaixa perfeitamente em qualquer conversa boba de elevador. Soa até como uma melodia pra aquele ouvido que adora uma boa reclamação.

Antes eu não enxergava o quanto essa percepção limitava a minha forma de ver o tempo. Logo eu, que detesto me ver sendo controlada ou limitada, permiti que o modo como outras pessoas vêem as suas próprias rotinas fosse também aplicado a mim por todos esses anos. A questão é que a forma como vemos o tempo reflete diretamente no nosso olhar de mundo. E eu não confiaria o meu olhar de mundo na mão de mais ninguém.

Eu sempre cresci ouvindo que a partir de certo horário tudo deveria desacelerar, entrar nos eixos, pra que o sono viesse e nos preparasse ao máximo para o dia seguinte – mais conhecido como um dia a menos para sexta-feira. Agora diga isso para um cérebro ansioso, uma mente criativa e uma mémoria que desenterra às duas da manhã erros cometidos em 13 de abril de 2010 (datas meramentes fictícias. Ou talvez não).

E o mesmo vale para os dias da semana. O fim de semana vem como uma montanha russa de sentimentos. Muita expectativa, mil planos, seguidos de bastante preguiça e uma queda brusca na energia interna. Não há domingo que resista à bad, se a segunda é realmente tão carregada assim.

Eu só consegui sentir que controlava o meu próprio ponteiro quando me vi longe de tudo que eu fazia e conhecia antes. Quando eu viajei, quando me afastei. E não se engane, eu precisava sim acordar antes do sol pra ir faxinar a casa de alguém, ou trabalhar em um evento até a última bandeja da madrugada ser servida. Eu não estou falando sobre quantidade de tempo disponível de cada um. E sim sobre qual destino escolhemos dar ao minutos que nos são dados. Porque isso vai de acordo com prioridades. Sejam elas emocionais ou práticas. Não importa.

Eu tive o privilégio de poder indagar sobre isso convivendo com outros estudantes. Todos os meus amigos também trabalhavam em empregos casuais, o que implica numa completa falta de rotina e em folgas em dias “anormais”. Foi quando eu aprendi a deixar de rotular os dias – e horários – como adequados pra isso ou aquilo. Segunda virou dia de boliche, terça era a roda de conversa no apto 36 e quarta-feira foi perfeita pra sentar bêbada no carpete da sala. Qualquer dia era uma possibilidade de se fazer o que se queria (e se possível também, né – porque nem tudo são flores). Mas podíamos finalmente nos questionar: por que não?

Se eu quero ver uma pessoa e tenho algumas horas livres, por que não encontrá-la? Será que é falta de tempo mesmo que me impede de convidar uns amigos pra assistir uma série juntos comendo brigadeiro? Eu realmente não posso conhecer um lugar novo hoje à noite? Ou ir no cinema sozinha amanhã?

Passou a ser muito notável pra mim como os temidos “dias da semana” não são usufruídos como sendo outras valiosas 24 horas. Ao meu ver, o que me faz bem deve sim ser diluído na minha rotina massante do dia a dia, porque me soa absurdo que a sensação de viver só deve acontecer nos finais de semana.

Não pode. Não dá. “Vamos marcar no sábado?” É como se ainda estivéssemos na escola e nossas mães nos dissessem que videogame é apenas no final de semana.

Eu pensava que tinha a ver com foco, com descanso. Mas a realidade é que nós sequer questionamos esses princípios. Nos foi passado desde sempre, então, em meio a tudo, é algo que nem pensamos em nos perguntar. Será que eu me encaixo nessa rotina? Será que eu preciso mesmo passar por uma semana inteira desejando já estar no final? Será que todos os outros dias são mesmo tão descartáveis e tudo o que importa deve ser espremido entre o sextou e a morte lenta da segunda-feira?

Talvez nós reflitamos sobre isso apenas para concluir que sim, não tem outro jeito. Essa é a única possibilidade e por isso ela é a fórmula – talvez universal – de sobreviver à rotina. Mas é que se houver uma mínima chance de que haja uma maneira de se enfrentar a semana de uma forma mais leve, eu não me permitiria a deixar passar apenas por preguiça de me questionar.

#9 Uma fórmula para o caos

Imagine seres humanos vindos do mundo inteiro, com vivências, valores, culturas e idades distintas. Agora os junte em um ambiente totalmente novo, onde cada um carrega objetivos, saudades e expectativas particulares. A partir de agora, todos devem conviver juntos, diariamente. Pronto, isso que é um intercâmbio.

Parece uma fórmula para o caos – e muitas vezes realmente é. Porém, esse também é o segredo que torna essa experiência algo tão transformador e relevante pro seu crescimento pessoal. Nós aprendemos muito sobre o outro e sobre como lidamos e reagimos ao diferente. O quanto ouvimos e absorvemos, o que negamos e quais partes de nós também são rejeitadas estão em jogo o tempo todo.

Respeito. Frustação. Limites. Tolerância. Amizade. Atração. Solidão. Nós aprendemos sobre egoísmo e também sobre conexão.

É como se você vivesse o primeiro dia numa escola nova, de novo e de novo. A cada vez que um colega de quarto diferente chega, a cada vez que é você quem se muda de casa. Todas as vezes em que você se hospeda em um hostel ou vai parar numa festa na casa de algum conhecido daquele amigo. Você se apresenta dezenas de vezes. E também escolhe a versão que vai mostrar de si, quem deve te conhecer de verdade e quem será apenas um passageiro do seu curto trajeto.

Você aprende a lidar com uma casa agitada justo nos momentos em que tudo o que a sua alma precisava era o silêncio. Você se vê lidando com uma noite um tanto solitária em que todos já têm planos, mas o seu humor insiste em ditar outra direção. Porém, há alguns outros momentos em você espera que todos ao redor se contagiem pela sua animação e também queiram conquistar o mundo ao seu lado.

Conciliar culturas e personalidades é algo extremamente desafiador. Por isso, se permitir conviver com diferentes pessoas te faz um indivíduo melhor. Se expor a situações que vão te fazer explorar outras facetas de si, te faz crescer e desenvolver características fundamentais pra viver de forma mais leve. Empatia, paciência, respeito… São valores que você cria e aperfeiçoa à medida que lapida as relações com as pessoas a sua volta.

Há coisas que você só aprende sobre si mesmo quando convive com o outro. Se privar disso é viver pra sempre acreditando que a ponta do iceberg é a única verdade. E verdades absolutas é um conceito que nunca vai existir. Nós precisamos submergir e abrir os olhos na água gelada. Acordar pra vida. Enxergar o outro. Para finalmente sermos capazes de enxergar as nossas versões mais puras e cristalinas.

#8 Só não se culpe pelo medo da maré

Você se expõe a críticas. Todos os dias. Falando ou se calando, fazendo ou adiando, realizando os seus sonhos ou os deixando pra depois. Não importa.

Portanto, é preciso ter em mente que partir para um intercâmbio envolve também receber críticas das mais diversas naturezas. E quando você puder enfim sentir o gosto dos novos ares, é quando o julgamento relevante de fato começa. Você está com a sua vulnerabilidade exposta ao desconhecido e concluir cada desafio que surge no seu caminho significa também se expor. Mais e mais.

Afinal, você precisa se comunicar, se relacionar, viver. Você precisa sim se arriscar a pronunciar algo que você não tem tanta certeza de como dizer. Você trabalha com funções que nunca pensou em realizar antes e dificilmente vai se sentir pronta pra isso. Você precisa formular rapidamente uma frase que, assim que sai da sua boca, você tem certeza que não está correta. É preciso ignorar os olhares, algumas risadas. Mas o principal é que você precisa lidar com o seu próprio julgamento – que na maior parte das vezes será muito mais duro e cruel do que o de qualquer outra pessoa.

Explorar a sua vulnerabilidade nessa fase da vida no exterior pode te assustar, principalmente no início. E por mais que você sempre tenha escutado que tudo fica mais fácil com o tempo, a teoria se choca direto com a realidade que você experimenta na pele, e muitas vezes essa colisão não será bonita. Mas talvez seja exatamente disso que você precise.

Você se acostuma aos pequenos fracassos do dia a dia. As frustações desses já não te pesam tanto assim. A perfeição passa cada vez mais longe e isso não te incomoda como antes. Suas prioridades se voltam para a realização de cada – grande – desafio diário, o que te faz colocar a timidez de lado, os seus medos na gaveta e descobrir uma força que você mesma subestimava.

Você vai se comparar, se sentir pra trás, a dúvida vai bater. Você vai questionar as suas escolhas e se sentir tão só… Pensar no passado faz a saudade doer, o presente é intimidante, enquanto o escuro do futuro desperta as inseguranças sem dó.

É nesse momento em que é preciso se lembrar de que não se está sozinha. Nunca. Que todos nós somos julgados e que tantos também se sentem perdidos. É muito normal se sentir navegando sem curso, mas o importante é continuar remando, mesmo que sem a certeza da direção. Então, quando precisar, descanse, olhe pro céu e volte a se orientar pelas estrelas. Só não se culpe pelo medo da maré. É que aquele que nunca questionou a correnteza sequer esteve um dia pronto pro mar.

#7 O desconhecido traz provações inéditas

Aqui estamos nós. Diariamente, no mesmo ambiente, cercados das mesmas pessoas. Essas, geralmente, com objetivos de vida semelhantes aos nossos. E mesmo conhecendo os personagens e já sabendo as suas falas praticamente de cor, ainda sim, os problemas a se enfrentar no dia a dia são inúmeros. Cada qual com as suas próprias questões, sendo todas difíceis de um modo singular.

Mas como sabemos até onde vão nossos limites se estamos nos desafiando sempre perante às mesmas situações?

O desconhecido traz provações inéditas e isso pode ser assustador o suficiente pra que te faça querer permanecer apenas aí mesmo onde você está.

Por isso o cenário de um novo país e uma nova língua é tão amedrontador. Não tem como se esconder ou evitar situações que te deixem vulnerável. Você está exposto, de corpo e alma. Você precisa enfrentar seus medos e testar seus limites o tempo todo.

E quando eu falo sobre medos eu quero dizer dos mais diversos. Desde um medo de inseto que antes você não precisava lidar sozinha, até o medo de se relacionar com novas pessoas. Medo da solidão, medo dos seus próprios pensamentos. Medo de falar em público, medo da inexperiência. Medo de não ter como pagar as suas contas, medo de errar. Medo de fracassar.

Mas é exatamente nesse cenário que você tanto aprende também. Porque você se testa. E nos testando, descobrimos que somos maiores e mais fortes do que a nossa mente limitada de desafios pensava.

Você descobre há em si versões ignoradas e cantos na sua mente que por anos foram inabitados. Vozes antes silenciadas são encorajadas a sair pela sua boca. Você se vê frente a escolhas que nunca estiveram em pauta e sente por dentro palavras que clamam para serem ditas.

Você se explora. E isso alimenta a alma.

#6 Talvez o “sempre querer mais” nunca vá realmente nos deixar

(…) Se você acha que tem que ser feliz, disposto e sociável o tempo todo só porque está nesse contexto, a partir do momento em que você não se encontra nessa vibração, tudo parece estar errado. Você entra no mal da nossa geração que é o FOMO.

FOMO é a sigla para a expressão em inglês Fear of Missing Out, que basicamente significa o medo de ficar de fora. Sabe aquela sensação de que todos estão fazendo algo mais divertido que você? Ou que tem algo melhor acontecendo no momento que você está perdendo? Ou que a sua escolha (ou sua única opção) de programação pro dia está errada?

Essa sensação sempre rondou o nosso comportamento e nos incomodou, porém com o uso intenso das redes sociais, esse fenômeno só tem se intensificado. E fica bem fácil compreender isso quando pensamos que a nossa forma de comunicação atual se baseia na comparação.

Antigamente nós não sabíamos o que o outro estava fazendo, como ele ocupava o seu tempo. E nada era em tempo real. Nós só tínhamos acesso às festas e viagens das outras pessoas através do relato delas – depois que tudo aconteceu – e talvez de algumas fotos num álbum. Não vamos nem entrar no aspecto que tais fotos eram imprevisíveis e bem mais fiéis a realidade.

Mas hoje em dia esses relatos são instantâneos, têm filtros e bastante intenção por trás.

E como fruto disso tudo temos a equação que abala qualquer saúde mental: expectativas + comparação = frustação.

Mas onde entra o intercâmbio nessa história? Bom, a ironia é que na maior parte tempo o viajante é provavelmente uma das pessoas do feed do Instagram que mais provocará o efeito FOMO em quem segue uma “rotina comum”. Porém somos todos vítimas e também vilões desse nosso próprio sistema, então com o intercambista não seria diferente.

Tantas expectativas te rondam, antes e durante o seu trajeto. Não apenas a sua própria pressão, mas também a das pessoas que estão longe e das que já viveram experiências semelhantes. É esperado que seus dias sejam sempre épicos, que cada instante seja digno de uma boa história pra contar, que você viva coisas loucas o tempo todo. E caso você seja uma pessoa positiva e que consegue extrair os aspectos bons de cada vivência, é bem provável que você se saia melhor nesse processo. Porém, se o seu psicológico não está tão saudável assim, você pode se ver em um ninho de frustação se as coisas começarem a acontecer diferente do esperado.

A questão é que tudo é mais intenso quando se está fazendo um intercâmbio. As relações, o tempo, as dores, as frustações e os amores. Tudo. A felicidade reluz como nunca, mas a angústia também se mostra com um peso até então desconhecido.

Então um dos desafios do viajante é conseguir seguir a sua rotina evitando se apegar ao sentimento de que deveria estar fazendo mais, aprendendo mais, conhecendo mais. A sensação de que não se está vivendo o suficiente parece até absurda, já que explorar o mundo já é considerado um dos retratos mais claros de uma vida bem vivida.

Talvez o “sempre querer mais” nunca vá realmente nos deixar. Talvez isso seja viciante.

O Fred Elboni (sou muito fã, inclusive!) tem um vídeo bem legal falando sobre FOMO. Assista aqui (: