É no céu que a vida acontece

Não sei como tudo isso começou. E sei que coisas assim sempre têm um princípio, um motivo, um passado. Mas essa raiz eu não alcancei, ainda. Apenas sei que eu não confio.

Em ninguém.

Às vezes eu penso que o que é meu é muito meu para entregar a um outro assim. Às vezes eu não acredito que o outro esteja mesmo disposto a cuidar, a se doar, a ouvir e se abrir com sinceridade. Tudo parece estratégico, raso, ensaiado, proposital. A melhor fala, a música mais cool, o livro mais interessante, a foto mais atraente. Soa apenas convincente aos ouvidos de quem não se convence nada fácil.

E então eu não entro no jogo, na verdade eu sequer me interesso o suficiente para ficar na torcida. Me sinto sempre correndo contra o tempo pra ir atrás do que eu quero, investigar o mundo, experimentar o que eu ainda não conheço e me entender. Não sobra espaço para preocupações com meias respostas, o que dizer, como chamar atenção… O cansaço vem só de pensar nesse esforço em equilibrar ansiedade, carência e migalhas. Quando se está ocupado colhendo migalhas pelo chão, você perde as estrelas lá do alto. E é no céu que a vida acontece.

Por isso eu peguei tijolo por tijolo e os fui empilhando. Um a um, um muro inteiro se formou. E eu percebi que ironicamente do lado de cá é bem solitário, mas nada silencioso. Pensamentos passam a mil e não tem ninguém que realmente os ouça e muito menos te compreenda. Então a busca interna por respostas tem que se tornar ainda mais intensa. Ninguém vai te dizer o que fazer, como se sentir, do que gostar. Só tem você aqui…

Talvez tenha mesmo algum problema em se achar melhor sozinha. Em se sentir bem consigo mesma e só. Em abraçar os momentos de solidão como parte do caminho. Você é dona de si, mas esse posto tem um preço alto. É que a autossuficiência é também uma estratégia. É o seu mecanismo defesa contra o mundo, a dor, as decepções. Mas o mais irônico é que você não deixa de sofrer por estar só. Se manter fechada apenas faz com que você seja a única a lamber as suas feridas, a ouvir seus gritos e a te enxergar verdadeiramente. Mas é um preço que eu escolho pagar em troca do autoconhecimento e, principalmente, da minha paz de espírito.

Essa independência emocional pode ser mal vista, pois ela se disfarça de muitas coisas e confunde o olhar do outro. Frieza, desinteresse, arrogância, solidão… Mas será que as pessoas não sabem como é se sentir sozinha também ao lado de tanta gente? Será que nunca viram desinteresse estampado na cara de alguém que deveria te ouvir? Ter uma companhia não te faz menos carente, assim como estar só não te blinda das frustações. Eu apenas penso que a minha companhia tem quer ser suficiente e ótima para mim mesma, antes de ser assim para qualquer outra pessoa. Construir muros de desconfiança pode não ser a melhor opção, mas, se é a forma com a qual eu me conecto comigo mesma de verdade, então esse vai ser o caminho que eu vou percorrer. Os muros são altos, mas a vista do céu é linda.

É raro permitir a entrada de alguém para o lado de cá, é verdade. Leva tempo, dá trabalho… mas uma vez que a guarda foi abaixada, o outro tem as chaves nas mãos para ir e vir quando quiser. Trazendo flores ou espinhos, é uma troca sempre rica e a confiança se torna totalmente cega. Sem preocupações ou paranoias, aqui se torna um lar seguro. Para os dois. Mas se um dia o outro decide partir de vez, é definitivo. As chaves ficam comigo, a porta se fecha e então é hora de fortalecer os muros e me reconstruir.

Mais uma vez.

– Fernanda Rocha

Às vezes nós só precisamos nos reencontrar mais maduros

PARTE III

Nada foi como o planejado. O itinerário, o quarto, a companhia. Nem o voo, a chuva ou a despedida.

Mas foi quando tudo saiu do controle que as coisas realmente se encaixaram. Nós paramos de nos atrapalhar e realmente estávamos ali, presentes, desfrutando de uma intensidade até então desconhecida. Foi engraçado lembrar de como nós demos muito errado até finalmente o nosso caminho se alinhar, mesmo que por apenas um breve momento. Às vezes nós só precisamos nos reencontrar mais maduros…

Você iria embora de vez, e eu logo depois de você. O nosso “nós” não tinha a menor chance, como nunca teve de fato, mas mesmo assim nada disso soava triste. É que meus ouvidos só ouviam as pazes e aquele som embalava o meu corpo cansado.

Parecia que as nuvens também tiravam um certo peso das costas naquele fim de semana. Ou talvez elas apenas desejavam que essas cenas fossem realmente escritas nas memórias daquelas duas pessoas que nada podiam fazer a não ser se conhecerem melhor enquanto as gotas caíam lá fora, sem interrupção.

Uma passagem de avião foi comprada, colocando enfim um prazo de validade para aquele momento que, até então, acontecia meio fora de órbita. E ali, na catraca de uma estação lotada, um beijo na testa selou tudo o que se foi dito, vivido e experimentado. E então eu parti.

Eu não esperava que você magicamente mudasse após esse doce reencontro. Na verdade, eu não sabia o que esperar. Mas mesmo você se mostrando mais vulnerável para mim, e até para os outros, nós fomos novamente levados para um vazio já conhecido. Naquele silêncio onde parece que o único som são meus pensamentos acelerados e o disco arranhado que insiste em repetir a mesma estrofe de novo e de novo.

E foi então que eu entendi. Não era você que precisava mudar, eram as minhas expectativas. Não havia outro culpado senão eu mesma, que insistia em entrar numa batalha na qual a frustração sempre iria vencer.

Muitas vezes esperamos que o outro diga e aja de acordo com o que nós julgamos ser o ideal, provavelmente como nós mesmos agiríamos na mesma situação. Imaginamos que a cena sairá como aquela que criamos na mente com os mínimos detalhes. Mas nem sempre o outro se encaixa naquele mesmo papel. E tentar encaixar as pessoas é a pior injustiça que podemos cometer. Com os dois.

E é exatamente isso que você me ensinou. E continua me ensinando, na verdade.

Cada um tem a sua essência, o seu modo de enxergar o mundo e a sua maneira de expressar tudo o que se passa por dentro. E isso é de fato maravilhoso. Todos nós funcionamos em vibrações diferentes, tempos diferentes. Há muitos sentimentos, interpretações e egos envolvidos. Não cabe a nós pedir que ninguém mude. Nos cabe apenas a maturidade de perceber o que é bom para nós, o que não nos faz bem e então decidir quem deve permanecer, qual a hora de insistir e, principalmente, reconhecer a hora de partir.

Eu não fazia ideia do que tudo aquilo significaria pro futuro, mas eu tinha a plena certeza de que eu estava aprendendo uma lição que levaria sempre comigo.

Segundas chances são válidas e ouso dizer que são preciosas. Porém, elas nem sempre vão ser sobre mudanças concretas, ou sobre aceitar alguém ou algo de volta. Às vezes elas são uma nova oportunidade para colocar os sentimentos às claras, ressignificar o que passou e então, talvez, seguir em frente. Mas agora com o coração verdadeiramente em paz.

Eu finalmente compreendi que essa história brilha melhor na memória, onde ela vai permanecer segura e intocada, saindo apenas para encher os ouvidos e os corações de quem precisa de um exemplo real de que coisas boas podem vir do tentar de novo.

Fernanda Rocha

Você via o tempo perdido, eu via o que ainda restava

(…)
No entanto, às vezes algo raro acontece. O seu seguir em frente te leva justamente pra quem te fez partir. Mas não é a mesma pessoa que você deixou pra trás que te encara agora. Não exatamente… São novos olhos. Mais sinceros, mais maduros. E é nessa hora que você precisa conversar com aquelas vozes ancestrais mais uma vez…

PARTE II

Eu nunca fui de acreditar muito em segundas chances. Há um número bem pequeno de vezes que eu estou disposta a lançar expectativas pro Universo em relação a um outro alguém. Uma, duas… talvez três tentativas e então você vai me ver saindo pela porta. E geralmente é definitivo.

Porém, eu já perdoei e aceitei de novo quem acabou trazendo de volta um precioso presente para a minha vida. Mas também já dei uma segunda chance que me machucou como nunca. E, mesmo assim, não me arrependo de nada disso.

Então uma terceira história veio anos mais tarde para me ensinar uma verdadeira lição. E nem se eu quisesse, eu me esqueceria dessa.

Eu te encontrei depois de muito tempo, não sabia absolutamente mais nada sobre a sua vida atual. Mas eu nunca poderia dizer que esse encontro foi por acaso, já que o meu lado curioso e barulhento nunca me deixou realmente abandonar a nossa história naquele Junho. Eu sempre me perguntei se seria realmente assim que tudo terminava. Me implicava tamanha sintonia caminhar para morrer bem ali, naquela situação estranha. Eu não era acostumada com o esquisito, e sim com o natural que antes era tão fácil entre a gente. Como nós conseguimos acabar tão facilmente com algo que sequer um dia começou? Eu me questionava isso enquanto duvidava que o Universo realmente criasse conexões em vão.

Foi preciso muita – muita – coragem pra te enviar aquela mensagem. Não porque era um ato grandioso e nem nada disso, mas é que aquelas palavras que soaram desprentensiosas na verdade tiveram que superar um orgulho bem grande para serem compartilhadas. Eu encarei aquelas últimas frases de uma conversa há tempos abandonada e lembrei de como elas contavam o nosso fim tão bem. Mas senti lá no fundo que esse era o passo que eu precisava dar naquele momento. Então eu engoli tudo isso, passei por cima do orgulho, pressionei enviar. E foi a melhor coisa que eu fiz.

Te encontrar pessoalmente me deu até raiva, de verdade. É que tudo se conectou tão facilmente que parecia que nada de estranho um dia havia acontecido. Nossas conversas fluíam enquanto as horas daquela tarde chuvosa passavam sem que nem percebêssemos. Isso me levava novamente aos meus questionamentos de sempre. Não era possível que fosse tudo da minha cabeça, era?

Porém, não fui eu quem tocou no assunto, você trouxe tudo à tona de repente, no meio da conversa. Apenas assim, como quem é movido por impulsos e não por pensamentos em excesso. Tive até inveja da sua facilidade. E então foi você quem questionou a nossa conexão, me perguntando se eu consegui encontrar isso de novo, depois da gente. Eu fiquei extremamente confusa. Tudo em você sempre me deixa confusa…

Aquilo foi como uma sentença. Significava que finalmente tínhamos entrado num estado mais vulnerável em que podíamos explorar mais e mais a fim de conseguir todas as respostas que buscávamos um no outro. Nós rodamos a cidade inteira, confessamos dores e inseguranças. E num bar qualquer, em frente a alguns copos de cerveja nos vimos esclarecendo meses e meses de mal entendidos, palavras não ditas e sentimentos guardados.

Foi ali que percebemos a besteira que havíamos feito. E o principal: quanto tempo havíamos perdido. Foi um baque bem grande. Eu vi ali a sua feição se entristecer, você compreendeu que tinha sido o principal responsável por tantos desencontros. Mas eu também conhecia muito bem a minha parcela de culpa. É aquele grande muro de defesa que confunde as outras pessoas, uma autossuficiência inabalável que transmite indiferença à elas. É o silêncio que é mantido, mesmo enquanto tantas coisas gritam aqui dentro.

Era quase cômico perceber que só compreendemos tudo no fim. Tínhamos dois dias e só. Depois disso seriam milhares de quilômetros de distância e boas histórias pra contar. É engraçado como esse fato soou diferente para cada um. Toda a sua expressão trazia um enorme arrependimento, enquanto tudo em mim clamava urgência. Você via o tempo perdido, eu via o que ainda restava.

E o meu ponto de vista claramente era o mais divertido…

(continua)

Fernanda Rocha

Não é preciso dois para se construir um monólogo

PARTE I

Um dia eu me levantei e apenas fui embora. O café estava frio, nada parecia no lugar. Naquele exato momento eu soube e sequer olhei pra trás. É que me ensinaram a me retirar da mesa quando o amor não está sendo mais servido. Eu chamo de intuição, mas às vezes acho que são ancestrais que sopram nos meus ouvidos o melhor caminho. E eu sempre o sigo.

O partir não é difícil, por mais que possa parecer o maior degrau. É que nem sempre é apenas o amor-próprio que te move, às vezes o medo e o orgulho se camuflam nas engrenagens, fazendo você pensar que a auto-preservação é a grande protagonista da sua fuga. E, no momento que você não enxerga uma boa razão pra permanecer, é quando o ponto final se torna claro e cristalino.

Mas a gota d’água nunca é o motivo de uma inundação. É o tempo que te mostra muito. Está bem ali nas entrelinhas silenciosas, ou até mesmo estampado bem na sua frente. As expectativas vão se acumulando pelo caminho e pouco a pouco a imaginação se cansa de criar tantos cenários inexplorados. Você percebe que não é preciso dois para se construir um monólogo.

De fato a partida não é o seu maior desafio, é o permanecer distante que vai te fazer questionar tudo. De novo e de novo. Muitas vezes esses questionamentos vão parecer te levar de volta ao início, como se todos que passassem na sua vida tivessem o mesmo papel de te fazer aprender uma difícil lição. Um aprendizado tão complicado que você jamais compreenderia se não fosse pelo caminho de espinhos.

No entanto, às vezes algo raro acontece. O seu seguir em frente te leva justamente pra quem te fez partir. Mas não é a mesma pessoa que você deixou pra trás que te encara agora. Não exatamente… São novos olhos. Mais sinceros, mais maduros. E é nessa hora que você precisa conversar com aquelas vozes ancestrais mais uma vez…

(continua)

Fernanda Rocha

“Apenas amigos”

Eu estava me enganando o tempo todo em dizer que éramos apenas amigos. O jeito como você acendia aquele cigarro, seu cabelo escuro contrastando com sua pele muito clara, e como seus olhos ficavam tão pequenininhos quando você sorria, é, ainda não saíram dos meus pensamentos. E embora eu quisesse por diversas vezes, ainda assim essa parte eu não quis abrir mão de esquecer. Porque eu te achava singular. E ainda me encanto por isso. A jaqueta de couro, a camisa do Star Wars, o óculos de nerd, seu jeito fácil e sensível de se expressar, bem o oposto ao gosto exótico pela música metal (pesado). Reunidos em uma só pessoa. Às vezes, penso que todo esse tempo tive é a vontade de saber mais a respeito.

Quando seus beijos percorriam minha coluna nua, eu me arrepiava de um jeito bom. Quando eu me conectava a você, o contato visual, era só o que eu queria manter. Sinto dizer que não encontrei essa conexão em outros depois de você. E isso me deixou bastante irritada por um tempo. Mas hoje sei que essas coisas são especiais, e portanto, difíceis de serem encontradas por aí. Não estamos falando somente de atração. E infelizmente “é só amizade” foi a resposta mais fácil para duas pessoas imaturas.

Sim, fiquei mal por um tempo quando as coisas entre nós acabaram. Na verdade, acho que não me conformei com fato de elas nem sequer terem começado de verdade. Mas tudo bem, há coisas que não precisamos entender, porque não era mesmo para acontecer. Ou caso o contrário, eu não teria aprendido tanto sobre mim. E como haviam sentimentos aqui dentro que necessitavam de mais atenção e carinho, antes que eu decidisse me abrir para alguém. E hoje entendo que o mesmo ocorria a você.

Thábada.

Como cristais de areia

Estávamos gravitando em nossas mentes, iludidos pelo controle do medo. Impedidos de nos expressarmos como realmente queríamos, como realmente somos. E com isso, completamente entregues ao sentimento devastador, optávamos por nos conformar com uma versão insatisfeita de nós mesmos. E nos culpamos por isso. Por querermos ser melhores e não conseguirmos. Culpamos a sociedade por isso. Por nos moldar assim.

Mas independente de quem começou primeiro, o ovo ou a galinha, fico me perguntando como de fato é se expressar com a coragem de ser, como quem realmente gostaria de ser. Quais os efeitos que essa ótica produziria ao meu corpo? E no seu? Como a sociedade seria se todos pudéssemos acessar com mais facilidade esse lado genuíno dentro de nossos corações? Deixando de escutar por completo os próprios julgamentos, o orgulho, a angústia ou o medo. E se pudéssemos fazer isso neste exato momento? Ou pelo menos, decidir que a partir de agora é assim que vamos exercitar os nossos pensamentos?

Nossa mente está criando todo o tempo. E sim, ela sofre influências de outras criações. Mas quem detém o domínio sobre ela, somos única e exclusivamente nós. Isso quer dizer que escolhemos o que nutrir e o que não queremos absorver. Mesmo que os estímulos do mundo sejam opostos ao que você acredita, os seus sentimentos são honestos e o revelam quais ideias alimentam a sua essência e acrescentam a sua construção. Pode acreditar.

Vivemos em um mundo difícil em que o egoísmo moldou nossas relações. E talvez nunca tivemos tanta clareza dessa estrutura social, quanto agora. Pessoas estão morrendo e lutando bravamente contra um inimigo coletivo e quase tão invisível quanto o medo. A diferença é que ele não atinge nosso corpo através de ilusões distorcidas sobre nós mesmos. Ele nos afeta fisicamente e nos faz repensar sobre como estamos lidando com a realidade. Em como deixamos de lado o que de fato importa, para alimentarmos nossa pequenez.

Ainda não sabemos, mas o mundo nos criou para sermos brilhantes. E ainda que sejamos grãos de areia dentro do Universo, uma bela praia é composta por uma larga extensão de cristais de areias reluzentes. Que só fazem sentido e emitem brilho, juntos.

Thábada

Ruelas de pedra, despretensiosas (parte 2)

É fácil se apaixonar durante os momentos de completa entrega quando estamos viajando. E acredito que isso ocorre pelo fato de estarmos inevitavelmente vulneráveis. E devo ainda dizer, que é maravilhoso viver histórias intensas, ainda que por 1,2, 3 dias (ou horas). Porque independente do tempo, sinto que todas as nossas escolhas são verdadeiras, sem nenhuma pressão. E embora eu estivesse muito tímida naquela festa de república de virada de ano, de 2018 para 2019, também estava muito confiante estando só. Pois eu já estava bem. Quero dizer, as amigas que eram apenas amigas, naquele momento já haviam se tornado minhas irmãs. E isso, para mim, já tinha valido a pena toda a viagem.

O que eu não esperava era que os romances mais improváveis também ocorreriam naquela festa também improvável. Naquele ano, a maioria das pessoas estavam confraternizando no litoral. E por motivos de baixo orçamento e busca por um refúgio mental, decidimos ir para um lugar onde mais ninguém estava. Uma cidade universitária do interior de Minas, onde obviamente a maioria dos universitários estariam em suas cidades comemorando com suas famílias. Portanto, uma cidade vazia.

Então nos abrigamos em Ouro Preto para reequilibrar a mente – e isso inclui dar um tempo nos relacionamentos. No entanto, lá também não estaríamos isentas de nos apaixonarmos novamente. Como nunca realmente estamos. E assim, sob efeito dominó, a desprendida, a desiludida e a que estava quase se entregando a um relacionamento sério, foram surpreendidas mais uma vez.

E eu poderia morar naquela noite – ao menos mais uma noite – em que estava abraçada às costas largas de um certo alguém, passeando em velocidade, pela cidade bucólica minutos depois de nos beijarmos na contagem regressiva do ano novo. Sim, foi mágico. A brisa fria e úmida balançando os meus cabelos e arrepiando os braços fortes dele. Seus olhos eram verdes como folha e o sorriso era meio tímido e meio atrevido. Eu o queria para mim. Conversamos sobre tudo, como se fossemos velhos amigos. E o carinho era respeitoso. Uma troca única que existiu em horas, e até hoje me recordo com graça. Será que é possível amar alguém por horas e ser amada também? Porque é justamente essa a sensação que eu tenho, de um amor que vive livre por aí.

Acredito que as pessoas não se encontram por acaso. Todas são peças essenciais para conhecermos melhor a nós mesmos. Sou profundamente grata por todas essas pessoas que cruzaram o meu caminho, sobretudo as minhas irmãs de escolha, pois sem dúvida me mostraram de um jeito muito singelo e único a tradução literal de conexões reais.

Thábada.

Ruelas de pedra, despretensiosas. (parte 1)

Lembro-me exatamente de como foi sentir aquele frio bom na ponta do estômago, porque ele se repetiu algumas vezes durante aquela viagem. Havia algo de mágico acontecendo, eu não saberia explicar o suficiente, mas se eu tentasse, diria que era o universo mexendo seus pauzinhos. E o que era para ser apenas um simples passeio de fim de ano em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais, se tornou um dos momentos mais bem vividos que já experimentei.

Éramos três amigas, com pouco menos de cem pratas no bolso cada, e caminhávamos como quem não queria nada pelas ruelas douradas de Ouro Preto, em plena véspera de ano novo. Cada cantinho em que virávamos, uma surpresa, um canto acolhedor e recheado de arte. E de pensar que cada tomada de decisão era uma surpresa leve e inebriante. Não tínhamos planos, apenas certeza de que queríamos fugir do absoluto caos da metrópole.

Penso que uma das melhores partes de se viajar com seus melhores amigos é se entregar para o desconhecido e não ter medo algum, porque no fundo você sabe que está seguro e que basta confiar na vida, pois tudo vai acontecer do melhor jeito. E assim foi. Entre passeios históricos, morros de pedras, artesanato local efervescente pelas ruas e uma natureza exuberante circundando toda a cidade, o silêncio se fazia valer em diversos momentos. Pois a apreciação também é uma forma de comunicação. E às vezes somente ela basta.

“Pois a apreciação também é uma forma de comunicação. E às vezes somente ela basta.”

Ao cair da tarde o ouro prevalecia em todos os cantos, e as curvas da arquitetura colonial o resplandeciam do alto, refletindo não só o brilho do sol, como também a sua carga histórica. E ao mesmo tempo que ocorria esse show natural de luzes, serestas harmônicas tocavam nas sacadas dos casarões. Ao passo que não bastou mais do que duas ruas para nos deparamos com um jazz acústico delicioso bem na portinhola de uma casinha aconchegante, um restaurante decorado com flores e varais de lamparinas. Pessoas de todos os tipos, e países, se reuniam ali para admirar o pôr do sol e também para celebrar o fim de mais um ciclo.

Fizemos amigos pelo caminho – e também romances -, companhias perfeitas, que hoje existem somente como doces memórias. A tradição fraterna das repúblicas tornaram nosso passeio despretensioso, um enredo cheio de nuances. É estranhamente bom como a relação das pessoas se torna muito mais descomplicada quando estamos fora do “habitat natural”. Parecemos ligar uma chavinha interna, em que deixamos todo o peso da rotina, os medos habituais, as crenças mais limitantes, para trás. Porque afinal de contas, o mundo é muito maior e não há tempo para essas besteiras.

Continua…

Thábada.

Quando eu fecho os olhos, não é o escuro que eu vejo

Às vezes eu queria ter a habilidade de enxergar as coisas pelo lado de fora. Mudar de ângulo, de perspectiva.

Ver tudo com a mente um pouco mais silenciosa, com o coração num compasso regular.

Como deve ser sentir tudo com um nível a menos de intensidade? Ou talvez dois.

A minha versão de fora repetiria uma situação de novo e de novo na cabeça? Refaria os seus passos? Recriaria as suas falas?

O que seria feito com os roteiros inventados? Com todo o enredo e suas possibilidades… Pra onde iriam as ideias que morrem pelo caminho?

Os meus amores iriam embora realmente partindo. Levando com eles o projetor que insiste em iluminar as paredes com memórias. Eu os deixaria ir.

Os erros seriam escola, não falhas. Não haveria tempo para arrependimentos ou espaço para os gatilhos.

O desejo fluiria sem culpa. Nenhum arfar seria abafado. Toda entrega seria completa.

Como seria ter todo o controle nas suas mãos? Ou não ter um medo sequer de não ter controle algum…

As decisões não trariam tanto frio na barriga, as dúvidas não apertariam o peito. Nada de pensamentos a mil por hora ou uma insônia que luta contra um corpo cansado e uma mente inquieta.

Mas a intensidade é tudo o que tenho. Não sei estar aqui dentro sem transbordar. Não sei ler e não pensar, ouvir e não sentir, ver e não lembrar.

Quando eu fecho os olhos, não é o escuro que eu vejo. Tudo brilha.

– Fernanda Rocha

Pensamentos próprios

Ontem estive pensando, e muito, sobre como reproduzimos o que nossos familiares nos ensinaram. Ou seja, o que de certo achamos que combina com a nossa personalidade e o que apenas repetimos porque a convivência proporcionou assim.

Venho de um lar com pais de uma geração mais antiga, que aprendeu que realização está associada a uma rígida base familiar e bens materiais construídos com as próprias mãos. E penso que justamente por tamanha rigidez, a dificuldade de se adaptar aos novos tempos e pensar na hipótese de mudança os façam temer tanto. A ponto se sentirem cercados e deprimidos. Não são raras as vezes em que escuto seus pensamentos falados, em tons de tristeza. Na verdade, cresci observando-os assim. Como se não se encaixassem nos lugares, apenas por medo de mudança.

E parte do que eles nos passaram, está inteiramente ligado a essa forma de enxergar as coisas. Isto é, antes de começar a pensar por mim, me vi por muito tempo apenas reproduzindo as formas deles de interpretarem a vida. Em resistir a transformação, por exemplo.

“E permitimos viver com esse incomodo, que ‘tecnicamente’ não nos pertence, por boa parte da vida. Como uma vida latente.”

Mas não é como se eles fizessem por mal. Acredito que eles também aprenderam a ser assim com alguém. E assim sucessivamente. O ponto é, como nos deixamos levar por tanto tempo com uma série de pensamentos baseados em experiências (ou até mesmo especulação) de outras pessoas? E permitimos viver com esse incomodo, que “tecnicamente” não nos pertence, por boa parte da vida. Como uma vida latente.

Acredito que nenhuma outra razão nos condiciona a vida senão o autoconhecimento. Porque para mim, foi somente me questionando e questionando essas atitudes ao meu redor, é que fui capaz de entender que o que me machucava internamente era um hábito que eu não concordava de fato e nem eu mesma precisava ter. Apenas estava reproduzindo.

Ainda é difícil para mim enxergar os meus pais, logo as minhas raízes, como um espelho nesse aspecto. Mas também reconheço o alívio de poder agora separar o joio do trigo. Isto é, o que é meu e o que não. Isso me alimenta uma esperança cada vez maior de poder fazer diferente.

Sobre escrever e formar opinião sobre si

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Quando mais nova eu me identifiquei de uma forma muito acolhedora com a escrita. Enxerguei-a como uma maneira para expressar meus sentimentos mais profundos. Durante a minha adolescência posso dizer que passei boa parte dela escrevendo histórias só para as minhas amigas de colégio opinarem mais tarde. E cheguei até a publicar um livro nessa brincadeira!

Nesse hobby percebi um desejo muito intrínseco, o de criar histórias e personagens com pensamentos muito próprios. Mas entre uma coisa e outra, fui me desprendendo do hábito e me afastando aos poucos. Confesso que até mesmo o projeto deste blog é uma tentativa de voltar a fertilidade desta prática e também uma forma de registrar as minhas ideias.

Escrever para mim, sobretudo, é um jeito muito eficaz de colocar as ideias no lugar e dar concretude as opiniões que pairam em minha mente. E atualmente, como vivemos cercados de inúmeras opiniões conflitantes nas redes sociais, vejo como uma necessidade de cada vez mais construir pensamentos próprios e se atentar sobre o que é realmente nosso ou o que são ideias externas.

Também me soma pensar em uma construção poética sobre si mesma, já que nossos pensamentos são bombardeados o tempo todo sobre inúmeros questionamentos. Portanto, considero relevante estruturar nossas formas de pensar por meio de algum mecanismo de expressão. Para que assim se possa facilitar a visualização mais apurada de nossos devaneios.

Nesse sentido, a escrita se alicerça a esse aspecto visceral para mim. É uma forma que encontrei para dissolver e reformular pensamentos, a fim de me elaborar mais honestamente. Uma parte muito sábia dentro de mim me apontou este caminho por diversas vezes como um meio de crescimento pessoal. E cá estou, novamente, tentando decifrar as minhas partes.

Escrever é um dos meus mecanismos favoritos. E o seu, qual é?

Sobre voz interior

O que eu realmente gostaria de estar expressando? O que são de fato os meus pensamentos e o que são ideias de outras pessoas plantadas em mim? O que eu reconheço em mim que me orgulho?

Já estou com 26 anos e reconheço a falta que me faz de olhar mais vezes para dentro e ficar feliz pela pessoa que me tornei. Tenho esta sensação porque talvez não saiba ao certo quem sou. E sinto que em todos esses anos, eu somatizei em mim um compilado de ideias de outros (boas e ruins) das quais eu não sabia digerir o que iria ficar e o que iria embora. Devido a isso, sempre pensei que o simples fato de acumular essas ideias, já dizia o suficiente sobre a minha personalidade, ou seja, que eu era exatamente como elas!

Acreditei profundamente nisso, apesar de nunca me dar por satisfeita por completo. Havia uma voz em meu interior que se arriscava a projetar maior, e embora fosse instaneamente ofuscada em meio a tantos pensamentos, sempre sentia que ela torcia com afinco por mim. Mais tarde, assimilei melhor alguns termos que a justificavam, como: “intuição” “eu superior” “voz do silêncio” “tomada de consciência” e “mulher selvagem”.

Para tanto, venho compreendendo nas ultimas semanas que possuímos muitas vozes dentro de nós. E aprendi que é necessário treinar os nossos ouvidos para escutar aquela que prevalece, porque é ela quem impera diante de todas. Essa voz é a mais sábia. Ela conhece cada uma das faces que carregamos, e sabe nos dizer quais nos serão úteis e quais devem se depurar. É uma inteligência natural, extremamente justa, que quer o nosso bem acima de tudo. E quando a escutamos, sabemos o que devemos ressignificar em nossas vidas. Dar valor ao que precisa ser dado e permitir partir o que não lhe contribui.

Desta forma, acredito que quando nos voltamos para dentro e sentimos orgulho de quem somos, é porque nos escutamos mais vezes e por isso fazemos escolhas mais verdadeiras com nós mesmos. E nada para mim é mais poderoso do que saber se escutar em meio a tantos outros indivíduos se comunicando simultaneamente. Hoje, sinto uma enorme vontade de me ressignificar e me reconectar a esta voz. Acolher as minhas palavras, o meu corpo, os meus sentimentos, os bons pensamentos que projeto, e retribuir ao meio toda essa soma significativa e autentica de quem me tornei.

É quando nos vemos intimamente mais solitários

Apenas você e a sua própria companhia. Isso pode ser algo que te assuste… Estar sozinho frequentemente é relacionado à solidão. E solidão é triste, certo? Bom, eu penso que não. Com certeza pode ser melancólico, claro, mas isso depende mais dos rumos da sua própria mente do que do fato de se estar sozinho ou não. Pois, às vezes, quando estamos cercados de pessoas é quando nos vemos intimamente mais solitários.

Eu mesma já me senti bastante solitária com alguém bem ali do meu lado. Eu percebia que eu não era vista de fato, como se os meus medos e pensamentos mais profundos não fizessem a menor diferença. Eles sequer eram relevantes para se tornarem pauta. Afinal, não era para o meu eu de verdade que as luzes do palco eram direcionadas, e sim para o que eu representava, para o alívio que eu podia trazer, a paz que eu podia gerar.

Mas eu já não cabia mais no pequeno espaço reservado para mim. Eu precisei então interromper um fluxo que me machucava aos poucos há bastante tempo. Eu tive que escolher a mim mesma. E essa foi a melhor decisão que já tomei.

Eu coloquei um pé fora da sombra de um outro alguém e gostei do calor da luz sobre o meu corpo. E a cada novo passo eu era apresentada a um novo questionamento e um consequente aprendizado. Eu enfim enxerguei o meu reflexo, encontrei a minha voz, desafiei a minha força.

Esse processo doeu, mas não da forma que eu esperava. Meus dias não foram regados de raiva ou outros sentimentos que rapidamente se esvaem. Não foi como o arrancar de um curativo, foi preciso compreender as minhas feridas uma a uma. Um longo descobrimento de todos os efeitos dos traumas que ainda faziam questão de brilhar ao decorrer do caminho, quase como sinais de alerta de que um dia uma entrega não-saudável aconteceu ali.

No fim das contas, a “solidão” foi quem me trouxe clareza e finalmente paz. Eu deixei de estar só, pois eu me tornei minha e inteiramente minha. Hoje eu me sinto parte de um todo, pequena na grandeza vasta desse universo de possibilidades. Mais pertencente a um mundo que gira a todo instante, sempre nos mostrando algo maravilhoso com o gostinho do desconhecido.

Mais que nunca, hoje eu me sinto livre.

– Fernanda